Under my skin ...“So deep in my heart...”
Estava lá de novo. O cabelo oleoso, a franja meio ondulada, um
batom que ultrapassava os lábios murchos, grandes olheiras de rímel e
vida.
O copo de uísque
falsificado na mesa, o cigarro entre os dedos e o sorriso gasto.
Vinha sempre
pedir a mesma música, no final do espetáculo quando a maioria dos
fregueses já tinha ido embora e era possível resgatar os blues na
guitarra desafinada
Blues...
cada um de nós.. blues
No vazio
indeterminado da noite empoeirada de estrelas, saíamos para um café
fumegante. Mimi, os cacho dourados desalinhados, procurando um espelho
antes do xixi. Marina emburrada por causa dos caminhoneiros. E Billie, o
meu Billie olhos de fumaça e cafeína.
E a mesma música
na madrugada, lamento fundo da guitarra e da voz anasalada de Marina
I’ve got you under my skin”... yaaa I‘ve got you... under...
uuuuunder... uuuunder my
skiiiiiiiiiiiiiin...
Depois ela
saia, a dignidade intacta, e deixava umas notas amarfanhadas sobre a
mesa.
Todas as
vezes em que voltamos a São José do Imbassaí estava lá. Esperando e
pedindo a música de sempre.
Depois nem
isto. Era olhar para ela, esperar a saída dos clientes das baladas medíocres,
dos faroestes caboclos, para deixar sair a música enfartada, quase
doente dos verdadeiros cigarette blues. Under my skin.
Uma noite
falhou.
A cadeira
vazia me cortou. Via o dente dourado de Billie na fúria da guitarra me
chamando e não conseguia acompanhar.. um aperto no coração.. under my skin.
Duas noites
depois reapareceu.
Antes mesmo
da sessão coruja do rasga coração, fui procurá-la em sua mesa. Sorria, os dentes estragados entre o batom que
extravasava os lábios. Os olhos pintados eram sérios e brilhantes.
- Você não
veio... sentimos sua falta... palavras vazias, tentativa de estabelecer
um contato impossível.. o que eu fazia ali, meu Deus? Apanhei um
cigarro e pedi fogo, ela colou a guimba dela sem dizer palavra.
Me preparei
pra sair, merda de vida, quando ela respondeu:
- Ele
voltou.
- Voltou?..
repeti estupidamente - que bom.
- É foi bom
mesmo... tantos anos depois. Como se não tivesse saído. Estamos juntos
outra vez acredita?
“ Não”
mas respondi com um sorriso falso
- Claro.
Os olhos
dela brilhavam. Seriam lágrimas? Merda de vida.
Billie
sorriu para nós e começou “ I’ve got you”...
Ela umedeceu
a lingua ligeiramente, aspirou a fumaça e repetiu.. under my skin Lá fora era clamorosamente dezembro.
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