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Summertime “Summertime,
Billie dedilhou os primeiros acordes de Summertime... Mimi entrou
com sua voz rouca, Janis...
a música lancinante percorria as mesas quase vazias do fim de
noite.
Eu acompanhava, fazendo o backing na surdina... child, the
living’s eaaasy... quando ela incorporava a Joplin não havia outro caminho senão
aproveitar.
Mimi era uma
grande cantora, teria sido famosa se tivesse nascido no sul dos states e
não no norte da zona. Fish are jumping out... annnnnnd the cotton is
hiiighhhh....
Tinha um
timbre rascante e dolorido que lembrava a outra, um fraseado jazzístico,
incongruente naquele mundo empoeirado dos cigarette blues.
E a imponência,
o corpo escultural onde os anos iam acrescentando gorduras sem
boa-vontade. Pintava o cabelo de louro, para imitar Marina, mas era
morena da terra, brasileira, alma de Janis, voz de Janis em corpo de axé.
Cantava forró
de raiva e samba em desespero, com sua alma de blues. Ela era
summmertime, cover de Joplin.. arrepiante.
E se
apaixonava por caminhoneiros.
Toda a
intensidade de seu rouco desempenho lembrava aqueles amores baldios. Os
caras sumiam na poeira da estrada. Fazer o que? Éramos cometas
encontrando cometas em órbitas disparatadas.
Mimi bebia
muito e desconfio que isto ajudava seu desempenho absurdamente forte.
Todos nós afogávamos a voz, o piano, a guitarra e os blues no fundo do
copo e na fumaça dos baseados.
Naquela
noite estava melhor do que nunca... summertime.... a voz contracenando com a
guitarra, dura, incomparável... Oh, your daddy's rich and your ma is so....de repente ela se
curvou e desabou no palco...
Corremos,
Blllie , Marina e eu e a retiramos do chão, se esvaindo em sangue.
Os poucos
fregueses olhavam assustados, mas mal perceberam o que acontecera.
No camarim,
deitei Mimi na minha cama,
pálida, ainda sangrando: - Billie já foi buscar o médico... - Eu .. não quero médico.. você sabe... não
posso... tentou se levantar - Fica quieta!...- segurei sua mão - ... Por que,
Mimi? - Eu pensei...ele disse... - começou a chorar baixinho - Ta bom, fica quietinha... quem sabe ele não
vai voltar?.. te
procurar... - Não vai não... mas eu, eu acreditei...
idiotas nós.. todas nós – recomeçou a chorar silenciosamente - Não foi idiotice.. foi amor – minha voz
estava rouca - Amor... – nem que eu viva mil anos, vou
esquecer o olhar dela para mim, cão batido era isto.
Mimi se
recuperou rápido, se apaixonou de novo, encarnava Janis na poeira de
estrelas.. summertime... Child,
the living’s easy..
Quando sentiu que a gordura venceria as curvas, baixou os olhos
para a terra. e entre os amantes do forró conheceu seu fazendeiro –
um sitiante de Maria da Ajuda, vilarejo perto de Cabuçu.
Ele vinha
todas as noites ao barzinho sórdido só para ver Mimi. E até passou a
curtir Joplin... Hush baby baby, baby, no no no, no, no, no, Don’t cry, don't
you cry ...amor de verdade.
Outra vez se
curvando, caindo no palco, desta vez com
braços fortes para ampará-la.
Mimi casou
na Igrejinha caiada, de véu e grinalda.
No coro,
Billie tocou Sophisticated Lady pela primeira vez para outra mulher e
eu, com voz de Janis, acompanhei a guitarra dolorida... You're gonna spread your wings... Foi o nosso adeus.
Saímos pela
noite estrelada sem olhar para trás.
Mimi
reencontrara a inocência perdida.
Na rodoviária
deserta, Marina observou que era verão, summertime. Por alguma razão
que eu não consigo recapturar, achamos aquilo espantosamente engraçado.
E continuamos a rir até explodir a madrugada.
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