I only have eyes for you
“Are the stars out tonight?
Poeira... ônibus na madrugada, cansaço, cigarros, baganas,
conversas entre estrelas, fome, garganta seca, blues. A guitarra de
Billie... entediada, acenando bandeira branca.
Marina
recomeçara a imitar a Holliday “Maybe
millions of people go by But they all disappear from view...” Sinal de que estava na fossa. Era certo de que entraria em
outra das suas intermináveis bebedeiras de onde seria difícil tira-la.
Mas como cantava... beleza celestial
sobrevoando mesas vazias e palmas esparsas.
Impossível lutar contra os bem-alimentados
pagodeiros. Os forrozeiros
que chegavam e arrebanhavam multidões. Para nós, apenas a escória que
se acoitava nos desvãos da noite ,em busca de outros fracassados para
dividir as guimbas.
Mimi nem cantava mais solo,
fazia apenas backing para Marina Holliday...
Iniciamos uma rodada de música regional, no principio com instrumentos emprestados de colegas, depois, quando o dinheiro começou a entrar, compramos pandeiro, violão, viola e um surdo. Dava para enganar, fazíamos mixagem, em alguns temas, com o sax que, afinal, Billie pode dar a Marina e o piano de Mimi que sempre era possível conseguir de algum bar ou outro. Mudamos de categoria.
Sambas
abolerados, pagodes sem alma, forrós animadinhos, aprendemos depressa o
gosto azinhavrado do sucesso. Nunca fomos uma banda de multidões, mas a
casa estava sempre cheia e esquecemos os blues.
Eu chorava todas as madrugadas, por cada um de nós, após o
espetáculo, enquanto contava o dinheiro que entrava... em breve seriamos sucesso real,
as palmas entusiasmadas ensinavam isto nas platéias lotadas, no sorriso
simpático dos donos, nas mãos bobas que procuravam nossos corpos
cansados.
I only have
eyes for you...
Marina começou
devagar, lá no alto, a voz maravilhosa de Billie nativa
“Are
the stars out tonight?...
Diante da platéia
emudecida, Mimi e eu,
largamos pandeiro,viola e fizemos o backing vocal
“Sha bop, sha bop sha bop, sha bop... I only have eyes for you..”
“
I don't know if it's cloudy or bright I only have eyes for you dear”
O blues, nosso blues, por um momento mágico, comungou com todos,
caminhoneiros e fincados na terra, madames e senhores, jovens e velhos.
Com raízes Fundas e desfigurando o coração.
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