|
The way you look tonight “Someday
when I'm awfully low When the world is cold Just thinking of you And the way you look tonight”
Ela estava sempre lá.
Podia
chover, ventar, o frio moer os ossos das
noites vadias, mas não saia da porta da casa onde a gente tocava
os nossos blues de fim de noite. Gorda, negra, um sorriso de belos
dentes sem cuidado, cercada de sacolas com trapos, e histórias que
contava séria, esperando a fé impossível. O fato é que amava a música, qualquer música, mas especialmente os blues. Dizia que tinha um filho com um trompetista, perdido no mundo, imitava o gesto de tocar um imaginário e fazia com a boca um som que Billie e Mimi acompanhavam nas madrugadas após o café.
Por algum motivo, eram seus
preferidos.
Para Marina e para mim guardava uma indiferença tolerante. Era
uma crítica severa de música e tinha um ouvido bastante apurado.
Isto quando
estava bem.
Na maioria
das vezes mantinha um mutismo obstinado e ficava horas costurando com
linha inexistente seus trapos gordurosos e empoeirados. Os cabelos nunca
tinham visto pente e formavam uma carapinha escura que adornava com
alguns outros panos coloridos.
Quando os
Cigarette Blues voltavam a São João da Barra, ela nos seguia como um cão
de guarda. Os olhos acompanhavam Mimi extasiados, admiravam seu corpo de
sereia interiorana e voz rouca de Janis cabocla e Billie, para quem
guardava guimbas de cigarro e pelotas amarrotadas de doce que ele fingia
comer ( ou comia mesmo ) entre baforadoe de fumete vagabundo, após o espetáculo.
A gente não era muito diferente dela com nossos sonhos rotos, cercados dos trapos de vida que tentávamos costurar com ilusão atoa. E poucas fãs tivemos tão obstinadas quanto a Maria Louca. Mesmo nos momentos em que sua cabeça estava mais afastada do mundo ao redor, ouvia com atenção absoluta os solos de guitarra, as notas delicadas do piano, a imitação dolorida da Holliday de Marina ou a Janis emocionante de Mimi. Na porta, como um cão de guarda, seus olhos se enchiam de lágrimas. E acompanhava com a cabeça, com o corpo, com a alma.
A doida,
escarnecida, mendiga, suja e sem-teto era uma verdadeira blueseira.
Uma noite,
eu fazia com Mimi um backing para Marina, quando percebi uma confusão
na escuridão das mesas. Apurando a vista, percebi a Maria Louca
tentando sentar numa delas, vazia, e sendo empurrada pelo segurança.
Esquecendo a
música gritei:
- Larga ela!...
O segurança
se espantou e Maria aproveitou para sentar, muito digna com os trapos
coloridos escorrendo pelo cabelo pixaim.
Billie parou
de tocar, Marina se calou, todos olharam para a mesa e Mimi disse com
sua melhor voz sensual: - Deixa a moça em paz, querido. É nossa
convidada... O segurança hesitou, Billie acompanhou Mimi: - Deixa ela, cara, serve a Maria que é por
nossa conta. O brucutu continuava hesitando, olhou para os
fregueses, ninguém pareceu se incomodar, estavam todos perdidos em seus
trapos particulares.
Deu de
ombros e voltou para a porta.
Mimi foi
para o piano e começou a tocar a introdução... “the way you look tonight...”
Com voz
ainda mais rouca pela emoção, Marina começou:
“Someday
when I'm awfully low... When the world is cold...”
Do palco dava para sentir a vibração da
velha blueseira... ela começou a acompanhar com o trompete imaginário,
Billie entrou com a guitarra dialogando... eu temperava com meus bepops,
Mimi no piano, fazendo o fundo e Marina
“Yes you're lovely, with your smile so warm...”
O público, subitamente desperto, acompanhava com
palmas, como se percebesse que ali, naquele momento rasgado, se
processava um milagre
“It
touches my foolish heart...
Lovely ... Never,
ever change”
Não mude.
Permaneça assim.. como agora... e todas as humilhações, as noites
perdidas, os estranhos desinteressados, as palmas frouxas, os trapos
perdidos, tudo ficou trespassado de beleza.
Doidos,
loucos varridos, todos nós, passageiros de estrelas de lamê,
acompanhamos o trompete da Maria, menos doida do qualquer um neste planeta perdido.
“The way
you look tonight...”
Com seus panos coloridos,
copo de cerveja na mão, ela
foi a rainha.
A gente
viveu muitas coisas nesta droga de vida, mas poucas tão fortes como a
Noite da Maria.
Um dia, os
cigarettes voltaram a São João, ela não estava lá – desaparecera,
ninguém sabia como nem porque. Gosto de imaginar que, de alguma forma,
foi encontrar o pai do seu filho – o trompetista.
E que ele
toca para ela como nós, há tanto tempo atrás
“You’re
lovely.. the way you look tonight...”
Gosto de
pensar nisto quando estou assim, completamente vazia.
Maria Helena Bandeira
|