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Stormy blues “I just sit and
wonder
Sempre que precisava de ajuda ele estava lá. Quase invisível, não
exigia nada, apenas migalhas de atenção no universo ocupado dos meus
dias.
Nunca tive a
legião de fãs de Mimi, nem seu corpo de sereia dos caminhoneiros, ou
mesmo a beleza de Marina, a loura estrela de voz rouca, pairando sobre
os reles mortais das periferias esburacadas. Eu era apenas uma backing
vocal morena, triste e cheia de tédio.
Mas por
alguma razão que nunca entendi, me apareceu este tímido, esforçado e corajoso apaixonado. Corajoso
porque jamais recebeu uma palavra de incentivo, um olhar doce, um
agradecimento menos seco.
De uma forma
torta eu o odiava por me amar. Odiava ter um pobre coitado como único fã
e sua miséria física tornava mais irritante a dedicação - significava minha incapacidade
de ser amada por alguém melhor.
Era ajudante
de caminhão, mas não se encantou com as formas de Mimi. Sequer olhava para Marina, nossa
Billie rediviva, quando ela cantava, de olhos fechados e voz
magnífica, seus blues arrasadores. “Memories always start 'round
midnight...Haven't got the heart to stand those memories... When my
heart is still with you... and ol' midnight knows it, toooooo.”
Ficava com os olhos estreitos pregados em mim, nas minhas
entradas do backing... shabop... shabop... vendo algo que ninguém via, uma
aura que nem eu mesma descobri por
mais que pesquisasse o espelho ou o olhar alheio.
Na primeira
vez que o encontramos, em Sobradinho, chovia torrencialmente. O ônibus
nos deixou, com os instrumentos, na estação deserta. Naquele tempo não
tínhamos a alma e o trailer velhos, mas apenas nossos corpos jovens e
esperanças guardadas em caixas de papelão vazado de luz.
Estava muito
frio, mas o pior era medo de molhar a guitarra nova que nem tinha sido
totalmente paga.
Ficamos
olhando a água cair ao redor de nós, fumando um cigarro atrás do
outro, enquanto a madrugada
se fazia.
De repente,
sinto um toque no meu ombro. Era um peão moreno, alto, o rosto enrugado
de magreza. Ele me sorriu dentuçamente e perguntou se podia nos dar uma
carona. Antes que eu respondesse, Mimi já tinha agarrado o sujeito pelo
braço, agradecido e sentado no boleia do caminhão.
Ele nos
deixou na porta do hotel barato e ainda se ofereceu para nos levar ao Dancing 43 no dia seguinte. O mínimo
que podíamos fazer era convidá-lo para assistir ao show dos Cigarettes.
Foi quando
descobri que tinha um admirador apaixonado. Para surpresa e despeito de
Mimi, acostumada a reinar soberana e divertimento de Marina, para quem ele era menos do que uma barata
a ser pisada pelo seu sapato enfeitado de strasses.
E também,
infelizmente, para indiferença total de Billie, orbitando outras
esferas em planetas separados dos meus.
Desde o
princípio eu o odiei. Odiei seu sorriso tímido e dentuço, seu olhar
fixo em meu corpo, sua fome de mim, a certeza de que era o máximo de
afeto que conseguiria esculpir dos meus dias vazios – um pobre
coitado, feio e sem jeito.
E ainda
tinha que agüentar as gozações pérfidas de Mimi, as piadas de Marina
e até um ou outro olhar brejeiro de Billie, o meu Billie, por quem eu
teria cantado noites inteiras, sem receber um tostão, apenas para ouvir
sua guitarra mágica soluçar por Marina: “I only have eyes for you...”
Sim, eu só tinha olhos para ele
e me incomodava a adoração silenciosa do outro...
Cry me a
river, já que você quer assim. E o explorava, usava seu amor dedicado
com toda a maldade de que nunca me achei capaz, tentando que me odiasse,
que entendesse que não queria seu amor de pano de chão para enxugar
minhas lágrimas.
Uma noite,
em Cachoeira da Estrada, quando começamos o show, lá estava Walmyr na
platéia, mais feio e siderado do que nunca, me olhando com adoração (
ele parecia adivinhar nosso itinerário, seguir nosso acidentado
percurso ). Irritada, desviei o olhar e mal conseguia cantar os blues de
fim de noite, a voz engasgada de ódio -
o cara não entendia nada, danação de vida!.
Para me espicaçar, Mimi, com voz sublime de Janis, cantava
Sophisticated Lady. Ela também odiava aquela adoração constante que não
se dirigia ao seu talento ou a
sua bunda.
“Then, with disillusion deep in your eyes, You learned that fools in love
soon grow wise.
The years have changed you somehow.
I see you
now...”
A voz irônica, rouca, me provocava e, pela primeira vez, perdi a
paciência. Larguei o backing e fui até a mesa dele.
Seu sorriso
se iluminou, os olhos brilharam – acho que acreditava ter finalmente
vencido minha resistência.
Mas eu
estava cega de ódio e ressentimento - pela sua paciência, pelo amor
que não pedi e me oferecia tão despudoradamente, pela minha
incapacidade de despertar no homem de quem queria tudo o que um outro,
desastradamente, estava morrendo para me dar. Pelo erro do qual nenhum
de nós era culpado, mas me deixava com a boca seca e as narinas
frementes de raiva.
Ele se
levantou e me recebeu carinhoso:
- Amor?
Perdi a cabeça
e gritei:
- Eu não
sou seu amor, caralho! não sou nada sua, eu odeio você, odeio sua paixão
patética que eu não pedi, seus olhares, sua insistência, por favor,
pelo amor de Deus, me
esquece, some daqui, desaparece da porra desta maldita vida!
Minha voz, esganiçada pela
raiva, ressoou na casa quase vazia, atravessou as mesas, bateu nas
paredes, voltou soturna para nós
Assustado
ele caiu na cadeira, me olhando como um cão batido. Nem se defendeu.
Billie
atacou na guitarra, bem alto...
Memories
always start 'round midnight
Marina e Mimi começaram a cantar para abafar a dor anunciada:
“Haven't got the
heart to stand those memories,
Ele se levantou sem me olhar e saiu. Merda de vida.
Fiquei sem ação. Estilhaçada.
Os estilhaços
ia caindo ao som do blues, em pedaços
cada vez menores sobre o carpete roto.
Nunca mais o
vi.
Depois do último acorde de Billie, recomecei a cantar, sozinha e
à capela:
I just sit and wonder
Ninguém teve coragem de me acompanhar. Continuei repetindo até
perder a voz:
When it rains in here here here
Quando aqui está chovendo, chovendo, chovendo... tem tempestade
no mar.
Maria Helena Bandeira
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