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EU VEJO UM SOL “é
verão, baby, viver é fácil " (
summertime )
Blues explodiam em mim, o calor entranhava na pele e não havia como fugir à espinha de peixe cortando a
garganta.
Como nos
livros do primário, repeti para a janela: eu vejo um sol, eu vejo um
jardim castigado e
empoeirado, eu vejo uma mulher ressecada de viver. Naquele tempo havia
professores para nos ensinar a descrever
o mundo.
Dedilhei o piano levemente: cry me a
river ... chore-me um rio... o rio avançava dentro de mim, engolia
passado e presente, desbotava
meu retrato na prateleira do trailer. Sou ainda aquele sorriso? Fui
algum dia? Notas saem
mais rápidas, faço um fraseado jazzístico, improvisação... não há mais professores para me dizer que vejo um mundo.
A espinha
começa a se dissolver junto com a música.
Billie chega
e acompanha na guitarra. O dente de ouro
brilha na penumbra. Os braços estão mais finos. Estará se
picando? Não quero mais me preocupar com ele. Tantas vezes o tirei da
cadeia, tantas vezes contei histórias tristes sobre os cigarette blues
que já nem sei o que é verdade e mentira. Acompanho seu solo e os
pensamentos vão descrevendo a rota. Billie - não importa tudo - meu
amor. Billie por causa da Holliday, Billie assim mesmo, Etevaldo na
carteira de identidade.
Ele sorri,
música é sua terra. Não consigo tanto. Eu vejo um sol, eu vejo um
jardim , eu vejo uma mulher e não acredito em nada. Da janela vem a brisa leve que
ameniza o suor escorrendo pelas pernas. Largo o piano de repente , dou um
beijo em Billie e saio para
o jardim do estacionamento.
Marina está
fumando apoiada na parede do trailer
- Cadê Mimi?
perguntei
Ela riu
de lado e apontou para o caminhão há uns cem metros de nós.
- Passou a
noite com ele? - pergunta idiota.
Marina nem respondeu. Mimi acreditava que sapatinhos de cristal
existiam e príncipes se escondiam em caminhoneiros. Mulher feliz.
- Que tal a
casa? você esteve lá? E o som? – perguntas que atropelavam minha
dor.
Marina deu
de ombros. Eu sabia como eram as casas que sobravam para nós nestas
periferias pobres.
A brisa cessara e o calor sufocava.
- Acho que
vai chover
Ela olhou a
fumaça , bateu o cigarro e
respondeu:
- Talvez
Os
professores de mundo estavam longe. Billie também saiu, acendeu um
cigarro na guimba de Marina. Suas mãos tremiam. Meu coração ficou
mais encolhido. A droga estava acabando com ele. A droga e o amor.
Seu olhar
avaliava o corpo esguio e os olhos azuis. Ela nem reparou. Era muito
para nós, passeava pelos cigarettes sem contágio. Marina era roliúdi
e ninguém tiraria isto dela. Fumava com pose de diva blueseira, gestos lânguidos.
Eu seguia o
amor de Billie, acompanhava cada suspiro, afundando a faca.
- Muito
calor...
- Demais...
Nossa
improvisação escondia as verdades que jamais diríamos - eu que
amava Billie, que amava Marina, que amava a si mesma. Presos na teia de um sol
fugitivo, de planetas que corriam em direção a um inalcançável fim.
Conversando sobre amenidades para não explodir as verdades que acabariam com os cigarettes.
Acima de tudo, calávamos pelos blues.
Eu vejo um sol, eu vejo uma chuva que vem, eu vejo um caminhão há
cem metros daqui. Não há professores para o sub-texto.
A porta do
caminhão se abriu e Mimi saltou, ajeitando a blusa justa. Olhou para nós
meio embaraçada. Ninguém falou. Ela pediu um cigarro. Nuvens
carregadas se formavam no céu e o calor se tornara quase
insuportável. - Merda de cidade quente!...
- Quente demais... - Billie respondeu, vigiando os seios de
Marina que se agitavam com a respiração ofegante. Mimi percebeu e
olhou para mim.
- Vou tomar
um banho - quebrei a
corrente. O céu tombou
sobre nós, escuro, maligno. Eu vejo a tempestade se aproximando. *** Uma
boate modesta do interior, local de caminhoneiros, mas estava
cheia.
Nós sabíamos
que era mais pelo corpo de Mimi e a beleza loura de Marina, do que pelos
blues que arrancávamos da nossa alma esfarrapada. Não tinha importância.
Marina ia se
transformar na cover da Holliday, acompanhando
a introdução da guitarra, quando
eu iniciei, com voz rouca:
“Summertime....
child, the living's easy.... “
Billie me
olhou espantado, mas continuou, um fraseado lindíssimo, a dor
explodindo nas cordas. Mimi agarrou o sax e também seguiu:
“ Fish are
jumping out... And
the cotton, Lord... Cotton's high, Lord, so high...”
Cantei como nunca mais iria conseguir, com a alma rasgada, mordendo as
palavras, atropelando as sílabas... cantei com a alma exposta, o sangue
escorrendo de cada nota, cantei meu amor despedaçado.
Quando acabei, estavam todos de pé.
Aplaudindo. Eu vejo um sol.
Por toda
parte ainda era ontem, mas em mim amanhecia Maria Helena Bandeira
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