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Aquele Silêncio The memory of all that Quando o dia está assim, comprido, interminável,
não sei porque me lembro do Waltinho. Foi o sax mais bonito que já
ouvi pessoalmente. E olha que segui muita banda, antes dos cigarettes,
no tempo de adolescente, pegando carona nas banguelas. Waltinho se chamava Valter com V, mas pouca
gente sabia. Nem se importava. De qualquer maneira era tão lindo seu
jeito de tocar que o olho chorava sem o coração perceber. Uma noite ele se incorporou aos cigarettes,
apaixonado por Marina, a beleza loura e a voz negra da Holliday. A gente
vivia na corda bamba, mas onde passavam
fome três, sobreviviam quatro e os cigarette blues arranjaram um
sax de arrebentar a alma de um cristão. Logo Marina enjoou dele, não era mulher de
amores longos. Quando o dia está assim, imenso, inalcançável...
olho o mundaréu de estrada que vai sumindo na poeira atrás do trailer
e me pego pensando no Waltinho. Ele sofreu, se juntou a Billie na secura por
Marina. E nossa banda ganhou em beleza arrasadora. Eternamente blues. Não que a gente não se divertisse, muito pelo
contrário. Waltinho era um sujeito engraçado, teria sido um grande
humorista, não fosse o talento para a música. Depois do espetáculo,
na hora do cafezinho e do fumete, o trailer sacudia mais do que as molas
do colchão de Mimi, com as risadas dos cigarette blues. O cara tinha histórias incríveis por este
Brasil de meu Deus. Tudo que a gente passou virava brincadeira perto da
vida intensa daquele mulato pernambucano, perdido no sertão. E nunca se
queixava, morria de rir e transformava em piada a vida bandida. “Child, the living's easy”.... viver era de
ouvido... tempos de verão..
summertime... Quando o dia está assim, comprido, interminável,
não sei bem porque, eu me lembro dele. Do jeito com que enrolava a
bagana, os olhos meio fechados, sorriso torto. Lembro especialmente da noite anterior à sua
partida. Porque a gente tinha rido muito, falado bobagens sem parar, do
jeito que os jovens conseguem, quando é verão. Fazia um calor
infernal, como agora, mas para nós tudo era festa. Tínhamos arrumado
uma casa boa, com acústica
de cidade grande, num povoado da periferia, perto da Taubaté. Um cassino clandestino e muito
bem freqüentado pela grana paulista.
Na passagem de som vimos que o show ia arrebentar. E arrebentou. “There are many
many crazy things...that will keep me loving you...and with your
permission... may I list a few...” Marina cantou como nunca, nós arrasamos no
backing, Billie destruiu na guitarra, mas inesquecível mesmo foi o sax
de Waltinho... ’’No, no...
they can’t take that away from me” Ninguém pode arrancar isto de mim. A lembrança daquela música inesquecível, o sorriso dele, seu jeito, sua voz irônica, o amor que guardei intacto, cristal de rocha, paralelogramo, encouraçado. Fizemos a apresentação
de nossas vidas. Nunca mais houve uma noite como aquela. Nunca mais um
fraseado de sax como o dele. “The way you wear
your hat...the way you sip your tea...” Marina cantava
,arrebatadora, como se soubesse. Mas a gente não
sabia. Não sabia que nosso
sax estava condenado. No final do show, na hora
mágica do café, encontrei Waltinho curvado, arquejante , apoiado no
trailer. - O que foi? Viagem
errada? Eu nem sonhava o que acontecia - Não, princesa,
é só uma falta de ar... já vai passar... - Foi alguma coisa
pesada? - Não, eu tô
limpo, é o calor... deve ser... Então, eu nunca vou esquecer, ele caiu nos meus braços, deu um suspiro breve e ficou quieto. Surgiu entre nós o silêncio. Um silêncio interminável, como esta estrada, um silêncio da terra, das estrelas no céu, um silêncio absoluto, nítido, negro. Depois eu gritei e
não lembro direito o que aconteceu. Waltinho tinha um
problema grave no coração, mas não se tratava. Queria morrer assim,
vivendo, nos braços de uma mulher , na estrada. Na outra noite nem
sei como fizemos o espetáculo. Só sei que tocamos, em homenagem a ele,
a alma sangrando: “The memory of all that... No, no ,no..,no... they can’t take that away from
me...” E algumas vezes, choro.
Maria Helena Bandeira
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