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E as sementes renascem dentro da terra “All I do is pray the lord above will let me walk in the sun once more” (stormy weather ) Não lembro nitidamente de quase nada daquela época – as imagens se encaixam como um caleidoscópio, um turbilhão fragmentado, um furacão tropical. Nem sei exatamente quando começou o desmoronamento dos cigarette blues. Foi como a erosão das massas de barro com a chuva - a água vai se infiltrando devagar e um dia tudo desaba de uma vez soterrando as almas. Talvez tenha sido porque Billie não agüentou mais a indiferença de Marina e começou a afundar direto no pó, no vinho barato e na tequila. Ou porque eu mesma estava no limite das minhas forças, vendo Billie se destruindo por causa de outra. Ou pelos novos integrantes que contratamos no desespero e não sabiam, de verdade, o que era um blues: Mejicano, um instrumentista razoável, perdido pela cocaina e a bebida. Foi ele que colocou meu Billie na droga. Começou como fã, depois acompanhou a banda e se tornou a segunda guitarra. Nanico era baixista, parece piada, mas tinha alma de grande músico. Só que era roqueiro de coração e foi parar no cigarette por comida, baganas e um pouco de carinho. Feio, pobre e baixinho, Nanico era nosso cão de guarda, alma cândida num corpo de anão de jardim. Idolatrava Mimi e ela o tratava como animal de estimação, dispensando afagos e pontapés conforme seu humor variável. Nunca mais fora a mesma, desde o fracasso do casamento. Apareceu um dia, quando regressamos ao vilarejo de Cabuçu, com a trouxa nas costas e o olhar baixo. Não perguntamos nada. Voltou a ser nossa Janis cover, com algumas marcas a mais na bainha da faca. Ainda despertava paixões em caminhoneiros, mas inchada pela bebida e as lágrimas que sufocava nas noites da estrada. Enfim, éramos seis cavaleiros de nosso próprio apocalipse. E o público percebia isto. Rejeitava os blues partidos do fim de noite e aplaudia frouxamente os pagodes e forrós que tentávamos encaixar para não morrer de fome. Fome de aplausos e de comida. Cada vez mais esfarrapados, nossos sonhos percorriam as estradas empoeiradas em busca de um significado perdido. Um dia em que o dinheiro arrecadado em um puteiro da zona da mata, mal deu para cobrir as despesas de transporte, hospedagem e comida da banda, Marina teve uma crise. Pela primeira vez abandonou o ar entediado de diva intocável e chorou, se atirou no chão, rasgou suas roupas velhas de cena, repetindo que os cigarette blues estavam acabados. Billie tocou a noite inteira, um lamento dolorido, insuportável. E no dia seguinte, Mejicano foi embora. Era a última noite do contrato e queríamos fazer um show inesquecível, nossa despedida da estrada. Quando Marina entrou, os cabelos louros brilhando, o ar blasé recuperado, o vestido preto que eu ajudara a costurar de novo, aqueles homens rudes uivaram. Então ela começou, com sua voz incomparável:
Don't know
why..... e todas as vozes se calaram
there's no
sun up in the sky
since my man
and I ain't together mesmo não entendendo inglês, cada um deles tinha chuva no coração
Life is bare, gloom and misery everywhere e a chuva escorria por toda parte em mim, em nós, naqueles homens e mulheres cansados da nudez e da miséria. Mas por sobre a noite escura da lama brilhava o blues All I do is pray, the lord above will let me walk in the sun once more E o sol voltava a brilhar ali, naquele lugar miserável, pelo milagre da música. Billie tocou como nunca, Mimi era de novo Janis e eu fiz o mais belo backing de que me lembro nesta vida desgraçada. As casa veio abaixo de palmas, os homens nos procuraram no camarim, fomos outra vez jovens e disputadas. Billie recebeu elogios e notas, até Nanico foi rei por um dia.. Naquela noite mesmo arrumamos as malas e seguimos para outra cidade. Quanto mais o trailer se afastava, mais eu percebia que o fundo do poço estava longe.
Um pássaro cantou em algum lugar da madrugada. Não lembro nitidamente de quase nada daquela época. Mas lembro, com muita clareza, daquele pássaro cantando. E do cheiro da grama molhada. E da visão que me trouxe de sementes renascendo dentro da terra. Maria Helena Bandeira
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