Depois do amor “What a difference a day makes Billie saiu do saguão e se encostou na madeira
envernizada da varanda, olhando o
rio lá embaixo entre as pedras e o
verde. Aquele
lugar era lindo de verdade. Pela
primeira vez a gente estava em um hotel de bacana, com tudo pago. Maluquices
de um cara cheio da grana que se encantara com os nossos blues. E era amor
pela música mesmo, desta vez não havia olhares cobiçosos para nenhuma de nós.
O sujeito gostava de jazz. Sabe o tipo fanático que guarda milhares de discos
de vinil e avisa antes sobre cada acorde e vibrato, cada modulação na voz
dos cantores? Ele era este. Encontrou a banda em um bar triste em Teresópolis e
nos levou para o show naquele hotel na serra. Quartos com ar condicionado e geladeira, painéis de
madeira no teto, lambris nas paredes e janelas com vista para a montanha. Os cigarettes reagiram de forma diferente – Marina nem se abalou. Convencida de que nascera para
brilhar no palco da vida, jamais perdera a pose na sordidez das periferias,
nem perderia agora, diante do brilho falso dos bacanas. Era sempre a mesma –
loura, fria, inatingível, arrepiando com sua voz belíssima de Billie
Holliday nativa, puxando a alma de dentro dos casacos finos e dos vestidos
caros como arrancava a fórceps dos Zé Manés. Ela era uma parteira de emoções
, pastoreava arrepios. Mimi andava atrás do príncipe encantado e tanto
fazia que fosse entre os galãs maduros da platéia ou no corpo maciço de um caminhoneiro
de Cabuçu. Mas quando cantava, como cover de Janis, esquecia tudo e era completamente
blues. Só Billie eu percebemos a gloria suprema de estar
onde nunca sonhamos – ou tinha sido há tanto tempo que já perdera a cor. Ele ficou calado e o barulho da água correndo era música.
Não tanto como sua respiração na minha nuca. Maninha... – Billie me chamava assim quando estava
de bem com a merda da vida -... já pensou morar num lugar destes? Fazer
parada, construir uma casa e ter um monte de bacuris?... Eu ri baixinho... ah, como eu pensava... Mas respondi: - Sei lá... Ele me segurou pela cintura e beijou de leve a raiz
dos cabelos que eu prendera, alisando com a língua os cachos soltos. - Você é tão esquisita... do que você gosta? O
que você pensa? Está sempre tão calada e distante... A língua percorria o pescoço e no resto do corpo
discursos se formavam, torrentes de palavras, borbotões de verbos, adjetivos,
conjunções, hiatos , hipérboles e paradoxos que se engolfavam numa sopa
macia escorrendo pela garganta até morrer no coração, pássaro aflito em
mim. Não disse nada. Apenas deixei que me envolvesse, que
a música suave da água entrasse e me arrastasse até o quarto, me jogasse
nos lençóis macios, um eco distante de felicidade, um não acreditar que a
vida podia ser. Billie me amou como eu sabia que teria que amar desde
que o mundo foi formado. Me abriu e comeu, me derreteu feito sorvete, me levou
ás savanas ensolaradas de áfricas impossíveis, me ensinou todas as notas e compôs em
mim com lânguida suavidade e com paixão arrebatadora uma sinfonia singular. Sua língua aflita percorreu, descobriu os mais
secretos, me aturdiu e encantou, acendeu pequenas estrelas que cegaram e
afinal me jogou nua e absoluta no grito da paixão. E Billie me rompeu e me
rasgou e eu senti cada fibra de mim como se fosse única, separada e indivisível.
E o caos, o maravilhoso caos se instaurou. Até nascer a luz. No dia seguinte,
amanheci. A cama estava vazia, mas lembranças preenchiam. Luminosa manhã.. pra que tanto sol? É demais
para o meu coração.... Eu estava ali, plena, florescendo, jardim de delícias.
Comecei preguiçosamente a arrumar a cama, sentindo nosso cheiro nos lençóis. Billie sumira. Eu o conhecia muito bem para me
surpreender. Não tinha importância. Aquele era o meu dia seguinte. Apenas
meu. Combinei com Marina uma mudança nas músicas. Quando a cortina se abriu para as palmas polidas da
platéia chique, depois do Summertimes arrasador, Marina começou com voz
suave e límpída: What
a difference a day made Olhou para mim, me estendeu a mão e eu continuei, tremendo um
pouco: Twenty-four
little hours A plátéia sentiu o
clima e ficou silenciosa, mas eu podia sentir a energia do amor pulsando em
mim e escorrendo pela sala What a
difference a day makes Billie me olhou meio espantado, meio envergonhado e meu coração
teve um baque. . Não sabia se era por mim, a fome passageira, se por Marina,
a verdadeira fome, mas novamente não quis saber. Continuei a cantar, esquecida de tudo, até de Billie, até do
meu amor. It's heaven when you
find romance on your menu Naquele momento, nada mais importava, eu era o depois e cada
fibra de mim se sentia especial, cada memória do prazer me fazia vibrar,
aveludava minha voz e se afinava com a guitarra de Billie como em um coito
perverso e sensual What a
difference a day made... A platéia sentiu a diferença e um arrepio de erotismo
envolveu todos eles, atingiu Mimi no
backing, alvoroçou Marina, subiu pelas paredes, saiu pelas janelas e
atravessando a noite estrelada, acordou casais, consolou solidões, despertou
virgens inquietas e se espalhou por sobre toda a terra redonda. Maria Helena Bandeira
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