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O
amor é um pássaro rebelde ’’I know it’s wrong, it must be wrong - No começo até que foi gostoso... Pegou a latinha de cerveja, deu um gole e se
ajeitou na cadeira de tiras Acendi um cigarro e fiquei olhando a noite
despencar. Estava quente como o diabo e a última coisa que eu queria
era ouvir as confidências de Mimi. Mas não tinha como escapar. Ela continuou, a voz meio embargada: - O Dorival...eu gostava dele, não gostava?
Você é testemunha do quanto eu amava aquele cara... – seguiu meu
olhar – ... sei que o Billie não quer que a gente beba antes do espetáculo,
mas é só umazinha pra afastar o maldito calor... Deu outra bicada na lata: - Um cara bom pra mais de metro... bom demais,
se você quer saber, bom de enjoar...- olhou as montanhas se afundando
na escuridão - a gente tinha um sitio
bonito lá no Largo da Idéia - tanque pros patos, galinhas
poedeiras, um cercado com um bode e
três cabras, até uma vaquinha leiteira, a Dinorá... – riu
entre os dentes brancos – minha rival. Ela e a cadelinha vira-lata,
Princesa.... no início até que gostava daquela vidinha tranqüila, mas
Dorival passava muito tempo fora... As primeiras estrelas surgiam no céu. Eu
estava sufocada, queria fugir. Um grupo de mariposas rodeava a lâmpada
acesa diante da porta do trailer. - E ainda tinha os forrós... Eu menti... disse
que adorava, que amava música
de raiz, sertanejo, que estava enjoada dos blues... Dentro do trailer, Billie começou a tocar
“I’m a fool to want you” e meu estômago se aqueceu. Agora tinha
uma história. Sorri carinhosamente para Mimi - Eu entendo, querida... - Pois é, naquela época acho que era verdade,
não foi totalmente mentira... tudo
que ele fazia parecia tão lindo!... até o violão desajeitado e as
toadas que cantava com a voz grave de roceiro. O amor é cego... - E surdo... ri baixinho para não abafar as
notas que escorriam pela noite quente. I’m a fool to love you...I’m a fool to want
you...To want a love that can’t be true Ouvia a Holliday cantando no meu ouvido – sou
louca de querer você... E a voz
entrecortada de Mimi
continuando: - Mas o cansaço daquela vida foi se instalando
em mim devagar. Tudo começou a me irritar. O jeito como ele me olhava,
as mãos calejadas, o pigarro, o barulho dos dentes triturando a comida.
Odiava cada palavra, os CDs de forró, o violão e até o corpo dele,
peludo e grande em cima de mim... você sabe que eu adoro sexo... pois
tomei enjôo... Ela parou. Concordei com a cabeça. Sentia uma
opressão no peito, o calor me inundando, suor escorrendo pelas costas
nuas. As mariposas, cada vez mais frenéticas, faziam dançar as sombras
no chão. - Ele nem percebia, o idiota... se espojava em mim feito um
porco, eu dando graças a Deus quando acabava. Minha vida era a
infelicidade tranqüila do costume, sabe como é?... Eu sabia. - Até que num daqueles malditos forrós, vi um
anúncio dos cigarette blues. Foi o fim do nosso mundo. Ali, naquele
momento, ouvindo a música alta, no meio dos caminhoneiros e das
mulheres e homens se agarrando ao som da viola, eu descobri que não agüentava
mais. Me deu um ódio selvagem contra ele, contra todos.... Engasgou com as palavras e pigarreou. Eu estava
paralisada, só ouvindo. ’’
I’m a fool to hold you “Sou uma doida de segurar você” gemia a
guitarra de Billie e a letra no meu ouvido Mimi continuava, nada a faria mais parar,
atropelando as frases: - Deixei o marido plantado na mesa e me dirigi
para o mais alto e bonito dos caminhoneiros, afastei a piranha que
estava com ele e começamos a dançar feito cavalo e égua, uma dança
obscena, selvagem, pela
primeira vez em muito tempo, eu sentia tesão de novo, um tesão
insuportável, cheio de ódio, molhado, lascivo, corrosivo. Colados como
dois animais, éramos apenas ritmo da natureza. E eu gozei, acredita?
gozei como uma cadela, ali, na frente dele e do povo todo que parou para
olhar.... O silencio era mortal, quando empurrei o cara e voltei pra
minha mesa. Dorival estava
parado, petrificado, enraizado na cadeira, me olhando, como se nada mais
existisse no mundo. E aquele olhar me enfureceu mais ainda. Queria que
me batesse, jogasse no chão, me espezinhasse...mas ele apenas se
levantou, pagou a conta, me pegou pelo braço delicadamente, e saiu. As mariposas estavam me fazendo mal. Levantei
bruscamente e apaguei a
luz. A música de Billie agora parecia obscena e triste como a história
de Mimi. “Time
and time again I said I’d leave you Eu queria que acabasse logo, queria esmagar
suas palavras dentro da boca pintada e grossa. Mas ela continuou: - Chegamos em casa, eu estava fora de mim de
raiva, cara mais frouxo!... Então falei, disse tudo que estava
engasgado durante aqueles anos todos, confessei que amava os blues e
odiava os seus pagodes, os seus forrós, que odiava aquela vida, o
cheiro da terra e cada um dos
CDs enfileirados na estante. E acabei de enterrar mais fundo o punhal do desprezo - disse que
detestava tanto aquela vida quanto detestava seu violão, a música horrorosa que ele
cantava, sua voz desafinada... Então consegui, finalmente, matar o amor
que me desesperava, boiando
nos olhos dele. Me olhou dolorido.. nunca, nunca, vou esquecer aquele olhar...
virou as costas e saiu. Logo
depois ouvi o caminhão partindo. Fui para um hotel e no dia seguinte os
Cigarettes chegaram a Cabuçu. O resto você sabe. Ela se calou finalmente, mas o veneno estava
agindo dentro de mim. O amor, este filho da puta! Levantei devagar, meu corpo eram toneladas por
causa do peso do coração. O blues se espalhava pela noite quieta e Mimi
chorava baixinho, fazendo um contraponto curioso e esquisito. “I know
it’s wrong, it must be wrong Eu sei que é errado, deve ser errado, mas
errado ou certo, não consigo ficar longe de você Uma infinidade de estrelas me cercava enquanto,
sozinha, eu compreendia que estava morta. Foi quando aconteceu uma coisa inesperada, uma
coisa mágica. Do trailer veio uma música que abafou a guitarra de
Billie: “L'amour est un oiseau rebelle que nul ne peut apprivoiser,
et c'est bien en vain qu'on l'appelle, s'il lui convient de refuser”
cantava a voz límpida da soprano, na Habanera. Marina colocara a ópera de Bizet. A guitarra se calou e Billie apareceu,
sorridente, na porta do trailer, o dente de ouro brilhando. Ficou
ouvindo a ária com delícia, olhos de menino. Mimi parou de chorar,
pareceu entender algo que nenhum de nós sabia bem o que era. “O amor é um pássaro rebelde”... meu coração
adejou.. “que ninguém pode aprisionar”... abriu as asas... “é em
vão que o chamamos”...
voou sobre a silhueta escurecida das montanhas... “quando resolve
recusar”... Percorreu as colinas distantes, rodopiou e caiu
em parafuso sobre os cabelos rebeldes do meu Etevaldo, do meu,
eternamente, Billie. Não há cura para o amor. Maria Helena Bandeira
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